Hoje o texto não será meu. Conheci um cara esses dias de 23 anos e muita história pra contar. Thiago Praxedes... ou mestre Thiago com é conhecido! O mestre mais jovem a estar a frente de uma bateria, saiu da sua escola de coração Barroca da Zona Sul e fundou Quilombo... Ele conta a história da fundação do Barroca com ilustres nomes presentes... Hoje o texto é dele!
Salve o samba paulista... e quem conta um pouco dessa história é o jovem thiago... (Obrigada pelo texto!)
"DIA 09 DE ABRIL DE 1977

Dizem os antigos que no samba de São Paulo não houve batismo igual ...Depois de conquistar o III Grupo em 75, o II Grupo em 76 e ficar entre as 7 primeiras do I Grupo, a Barroca Zona Sul dava um grande salto para ser uma escola de samba potência do fim dos anos70. Campo do Brahma já não comportava os ensaios ... depois o cimentado acima do nível do campo da Portuguesinha de Vila Mariana .. mas faltava um terreiro de ensaios para uma escola tão jovem e conceituada. Naquele grande momento faltavam apenas duas coisas para a escola bater a tarimba entre as grandes: Batismo e Quadra ...E lá foi então o velho Pé Rachado como fazia todos os anos pós o carnaval para o Rio de Janeiro ... “Ele vestiu o sobretudo branco e disse a Mangueira vem aí, ninguém entendeu nada (risos)” relatou Bira, um dos filhos de Pé Rachado e um dos fundadores da escola.Em 77 a Barroca em seu primeiro ano ficou entre as 7 primeiras desbancando escolas tradicionais na época como o Peruche, Tatuapé e Morro da Casa Verde ... mas o resultado não foi o que Pé Rachado esperava ... por fim lá estava seu sonho de pé ...Em Mangueira, Pé Rachado tinha sua parada obrigatória ... “O Para quem Pode” ... era um buteco no morro do buraco quente e ali só freqüentavam os nego veio da Mangueira e as cabrochas mais conceituadas. Por ali já encontrava seus grandes amigos – Tio Jair, Babau, Mestre Valdomiro e seu grande amigo de “construção”, Cartola ... isso mesmo, o próprio Cartola que Pé Rachado conheceu trabalhando em obras pelo Rio de Janeiro, que virou ícone da MPB e o incentivou a fazer sua própria escola quando deixou a presidência da Vai-Vai.Então era hora de Cartola cumprir o prometido: “Funda sua escola que Eu e a Zica vamos fazer questão de ser os padrinhos”. Estava marcado então ... o presidente Bira Maximiniano quando viu o oficio riu da cara de Pé Rachado: “Orra Pé nem precisa de papel”.Essa época, estava começando a ser construída a quadra da Mangueira, claro que não com a mesma grandeza dos dias de hoje, mas em acervo familiar de Pé Rachado uma foto traduz todo laço de amizade fraternal que existia ... nessa foto Pé segura uma pá com cimento e alguns figurantes da Mangueira com tijolo na mão. De volta a São Paulo os preparativos estavam 100 por hora ... o terreno na Paulo Figueiredo (Hoje de frente ao metro Imigrantes) já estava sendo preparado. Pé Rachado e muitos barroquenses trabalharam dia e noite para erguer a quadra de ensaios ... mas por fim ... Domingo 11 da manhã chegou o ônibus da Estação Primeira de Mangueira ... a bateria, os puxadores, mestre sala e porta bandeira, baianas, a velha guarda ... Cartola, Dona Zica, Dona Neuma, Babau, Tio Jair entre muitos outros ...O ponto de partida foi um futsal entre Barroca e Mangueira ... o resultado da partida nós não temos hehehA tarde almoço e muito samba que rolou até a meia noite ... todo mundo foi descansar após o samba. O antigo Colégio Adjetivo de propriedade do vice-presidente da época Osmar César de Carvalho abrigou os mangueirenses ... chegou a noite ...A quadra estava pronta ... chão de mármore, palanque de bateria, camarotes e tudo mais ...O momento tão esperado com certeza foi o encontro das baterias e das bandeiras:Mestre Binha de um lado ... e Mestre Taranta do outro já que o velho Valdomiro estava em cima do palco. De um lado Wilson de Morais e Marina do outro Mocinha e Roxinho ... Delegado estava presente, mas pelo Camisa Verde e Branco.Baianas das duas escolas espalhavam todo axé em verde e rosa a comunidade do samba que permaneceu em massa. Aí veio o momento mais marcante:Pé Rachado oferece o pavilhão a Cartola quando lhe é passado o microfone e ele diz: “Eu beijo essa bandeira como se beijasse o rosto de minha mãe” (Folha da Tarde 11/04/77) ...Eis ai a Barroca Zona Sul deixava de ser uma escola pagã e por fim era batizada pela Estação Primeira de Mangueira e por seu padrinho Cartola e Dona Zica também.Foi oferecido por Pé Rachado lembranças aos convidados (esta que se encontra no livro de Dona Maria Aparecida Urbano) e placas aos sambistas da Mangueira e em especial ao padrinho Cartola.Nesse dia também marcou a passagem de pavilhão de Wilson de Morais e Marina para o casal cria de Pé Rachado – Ednei (consagrado mestre sala inclusive fundador da Amespbesp) e da falecida Elizabeth Roque (à quem carinhosamente Pé chamava de “neguinha sem cabelo”). Ednei depois ficara com Beth ate o carnaval de 1983 ... Beth ficaria com o primeiro pavilhão até 1989 sendo a maior porta bandeira da história da escola.A Mangueira agraciou à Pé Rachado com honras de sócio honorário, uma bandeira e outros apetrechos ... Babau trouxe a imagem de São Sebastião (Oxossi) para abençoar a escola.Grande Pé Rachado ... foi em sua casa que depois Cartola e Dona Zica se hospedavam quando montaram o Zi Cartola aqui em São Paulo na Vila Formosa (que não deu certo é verdade) – era em parceria de Cartola que Pé Rachado subiu e desceu tantas vezes o Morro da Mangueira ... Uma história que o tempo poderá não se lembrar ... mas jamais se apagará ... com certeza daria um grande enredo como foi “Tengo Tengo” ... não foi para a avenida mas foi em noite linda, em noite bela
AXÉ
Mestre Thiago"
Aprender sobre samba é conhecer pessoas esquecidas pela midia!
Abraços....

